Young girl combing her hair

Como mencionei no post anterior é crescente o número de pessoas que sofrem de algum distúrbio emocional (psicológico e/ou psiquiátrico). Tão alarmante é o número de crianças que são medicadas por serem diagnosticas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDHA). Basta apresentarem dificuldades escolares ou um comportamento ativo além do esperado pelos pais que o diagnóstico é feito ou pensado. Segundo a OMS (Oraganização Mundial da Saúde 20% das crianças no mundo sofrem de algum tipo de transtorno mental debilitante).

Acredito haver uma super valorização em diagnosticar tanto da parte dos médicos como da parte dos pacientes. Esses últimos querem respostas e os primeiros as dão. Novamente alerto: cada caso é um caso. Porém, com criança, para a psicologia e a psicanálise é complicado pensar em diagnóstico, exatamente porque a personalidade ainda está em desenvolvimento. Isso quer dizer que os comportamentos vão mudar, inclusive na adolescência. Claro que intervenções precisam ser feitas se há queixas tanto da família quanto da escola. Também vou salientar que existem sim crianças que precisam de medicação e que podem receber um diagnóstico. Mas cabe a nós, pais, professores, educadores, cuidadores, familiares e sociedade em geral não rotular, não estigmatizar e nem cristalizar essa informação.

Quando refiro-me às intervenções incluo conversas e orientações com os pais, avaliação psicológica e intervenção psicológica com a criança, orientação na escola com os professores e orientadores, trabalho em conjunto com o médico que avaliou e continua a atender a criança, além de intervenção psicológica com os pais, quando necessário.

Sintomas podem ser expressões das emoções da criança

Muitos sintomas que as crianças apresentam tem relação direta na maneira que a família se relaciona com as mesmas. O profissional que possui um olhar atento a isto, com sua intervenção consegue sanar o desequilibrio tanto na criança como na família. A criança não compreendida reage através do comportamento, é a única maneira que possui para se expressar. É mais simples do que parece. Muitos pais não estão prontos emocionalmente para cuidar de seus filhos e isso gera na criança insegurança, medo e tristeza. Ela então, pode reagir manifestando raiva, choro frequente, impulsividade, “não obediência”, agressividade, desatenção, dificuldade escolar, pouca habilidade de socialização entre outros comportamentos, que vistos como birra ou distúrbios da criança, acabam gerando mais comportamentos destes descritos. Novamente ciclo vicioso.

Young girl singing,her bed

É tão fácil para nós adultos entendermos como um funcionário se sente quando não é ouvido e compreendido pelo chefe, colegas de trabalho ou familiares. Mas, em relação às crianças isto não ocorre. Logo a taxam de mimada, irritante, birrenta, mal educada. Será que estes comportamentos não são sintomas de como os adultos interagem com ela?

Casos clínicos

Recebi em meu consultório uma menina de 5 anos. Sua história de vida era muito difícil. Ficou orfã de pai muito cedo, precisou mudar-se de país, sua mãe desestruturou-se emocionalmente e finaceiramente com a morte do marido e não conseguia encontrar sentido na vida. Desde que a menina nasceu a mãe teve muita dificuldade para cuidar da filha, talvez por que morasse num país que não fosse o dela, sem amigos e familiares, talvez porque naquele momento pudesse estar frágil emocionalmente. Na época o marido viajava muito e pouco ficava com elas. Enfim, existiam vários motivos para a menina apresentar dificuldades tanto na escola como em casa. A queixa da mãe era que a menina desde que nasceu sempre havia sido muito difícil, impossível de conviver.

Comigo, vi uma menina doce, assustada, reagindo as marcas duras da vida. A mãe havia procurado um neuropediatra para medicar a filha. Este avaliou o caso e achou que cabia medicar com dosagem baixa para acalmar a mãe e a encaminhou para avaliação comigo. No breve tempo que tive com a pequena consegui entender o que se passava emocionalmente com ela, bem como intervi criando novas possibilidades de interação comigo. Conforme ela foi sentindo-se segura, começou a demonstrar sua raiva em ações diretas comigo. Chegou a me bater. Era comum ela apanhar e ficar de castigo no quarto escuro. Eu a acolhi em todos os momentos e ela passou a reagir com muito mais tranquilidade. Encaminhei a mãe a um acompanhamento psicólogico. Eu e o neuropediatra fizemos reuniões com a mãe para orientá-la na relação com a filha e explicar sobre os efeitos da medicação. Infelizmente ela não procurou acompanhamento para si, bem como tirou a menina da análise, pois alegava que a medicação não fazia efeito. Neste momento eu já havia informado à mãe sobre a necessidade de acompanhamento psicológico da menina.

Young girl dancing,her bed

Eu estava atendendo uma menina de 10 anos e precisei fazer diversas orientaçõs com os pais. Numa conversa o pai relatou que bateu em seu filho de 5 anos porque este falou palavrão à ele. A mãe na sequência contou que o pai xingava as crianças o tempo todo, pois vivia nervoso. O pai indignado disse que ele diversas vezes falava ao filhos “não façam o que eu faço, vocês tem que me obedecer”.

Crianças aprendem por exemplos e não só palavras

Talvez vocês estejam pensando que parece conversa de louco ou que estas famílias tinham problemas graves.

Quantas vezes vocês são cuidadosos com o que falam com as crianças? Quantas vezes vocês a julgam e já a punem sem entender o que a mesma estava sentindo ou pedindo? Quantas vezes vocês repetem o que seus pais fizeram com vocês? Vocês discordam condutas na frente da criança? São consistentes nas ações, ou seja, se falam que a criança vai ficar sem tv por 1 ou 2 dias se ela continuar a apresentar tal comportamento, vocês a deixam sem tv? Vocês são rígidos demais? São permissivos demais? Calam a criança com brinquedos ou fazendo a vontade dela, assim ela para de “encher”? Se apanhamos, também batemos. Se ouvimos que éramos mimados, dizemos isso à nossos filhos e etc. É o padrão da repetição por modelo adquirido. Senão sabemos como fazer recorremos às nossas experiências do passado, seja repetindo ou fazendo o oposto. De qualquer forma não estamos enxergando a criança, suas reais necessidades. Ela percebe e reage.

Reconhecendo os reais sintomas

Só para informação, “a tríade sintomatológica clássica da síndrome TDHA caracteriza-se por desatenção, hiperatividade e impulsividade. A desatenção pode ser identificada pelos seguintes sintomas: dificuldade de prestar atenção a detalhes ou errar por descuido em atividades escolares e de trabalho; dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas; parecer não escutar quando lhe dirigem a palavra; não seguir instruções e não terminar tarefas escolares, domésticas ou deveres profissionais; dificuldade em organizar tarefas e atividades; evitar, ou relutar, em envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante; perder coisas necessárias para tarefas ou atividades; e ser facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa e apresentar esquecimentos em atividades diárias.

A hiperatividade se caracteriza pela presença freqüente das seguintes características: agitar as mãos ou os pés ou se remexer na cadeira; abandonar sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera que permaneça sentado; correr ou escalar em demasia, em situações nas quais isto é inapropriado; pela dificuldade em brincar ou envolver-se silenciosamente em atividades de lazer; estar freqüentemente “a mil” ou muitas vezes agir como se estivesse “a todo o vapor”; e falar em demasia.

Os sintomas de impulsividade são: freqüentemente dar respostas precipitadas antes das perguntas terem sido concluídas; com freqüência ter dificuldade em esperar a sua vez; e freqüentemente interromper ou se meter em assuntos de outros”. (American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. Fourth edition. Washington (DC): American Psychiatric Association; 1994.)

Young girl dancing,her bed

O DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais) propõe a necessidade de pelo menos seis sintomas de desatenção e/ou seis sintomas de hiperatividade/impulsividade para o diagnóstico de TDAH.
Vou aprofundar mais sobre o desenvolvimento infantil emocional no próximo post e maneiras de como compreender e lidar com as crianças.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286
crisciola@hotmail.com

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