Les Demoiselles d’Avignon, de Julien Friedler. Releitura da obra de Picasso feita pelo artista belga.

“Todo publicitário sabe disso: somos basicamente movidos pela inveja.” Esta era a frase que começava a matéria na revista e caiu em mim logo como uma bomba! “O desejo que dispara nossa vontade de consumir é o de querer ter o que o outro tem, seja o carro do ano, a barriga tanquinho ou a família alegre que almoça ao redor da macarronada fumegante.”

Não pude discordar: gastamos bastante tempo e energia tentando nos aproximar de modelos impostos pela sociedade e exaurimos inclusive nossa dose primordial de bom senso, posto que a perfeição não é mercadoria disponível neste mundo naturalmente imperfeito.

O desejo subliminar da perfeição alimenta toda a estrutura econômica e social da nossa cultura e suga de nossas almas a auto estima, o contentamento e a realização. Procuramos por um corpo idealizado e não por um corpo vivido, sentido. Assim negamos nossa imagem no espelho e acabamos com qualquer chance de perceber que já somos a perfeição que buscamos fora de nós.

Nossas expectativas são projetadas neste “perfeito ideal” pelo medo de sermos excluídos se perfeitos não formos, seja profissional, sexual ou afetivamente falando. Depressão e síndrome do pânico são consequências comuns da pressão que impomos sobre nós mesmos.   Isso cansa!

Cansativo também é para mim a repetição deste mantra de que “a mídia nos impõe”. Queridos, está na hora de assumirmos que nossa inveja é que nos impõe. Ou nossa carência, nossa pouca força de vontade… Sentir-se inseguro  ou excluído do grupo, em algum momento da vida, é um sentimento infantil que assola a todos nós, sem exceções.

Amadurecer psiquica e espiritualmente é compreender que assim será o ciclo da vida: perdas e ganhos de todos os lados, sempre. É preciso questionar-se o tempo todo sobre suas escolhas. O respeito aos seus anseios, suas particularidades, só estará presente em sua vida quando você mesmo o exigir, respeitando a si mesmo e a sua natureza essencial.

Na filosofia oriental, seja no budismo, no yoga ou em tantas outras, ressaltamos o desapego e a noção de impermanência. O amor à natureza começa por se despreocupar das formas rígidas. Na arte zen, sete características se destacam: assimetria, simplicidade, austeridade sublime, naturalidade, profundidade sutil, liberdade de movimentos e tranquilidade. Todas elas presentes geram a harmonia da obra. Faça um paralelo com sua vida hoje e veja se encontra estas qualidades. Como fazer para incrementá-las em sua vida?

Segundo o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, a grande revolução começa ao sentirmos mais o corpo, ao termos um contato mais profundo e próximo com ele. Isso significa respirar melhor, movimentar-se mais livremente e de forma não repetitiva, experimentar toda a gama de sensações que os sentidos podem nos oferecer. O sentimento de  vitalidade, de autonomia, auto apreciação e bem estar experimentado na posse do próprio corpo pode nos tornar menos vulneráveis a modelos externos e comparações. Com esse conhecimento, abre-se o espaço para o nascimento de uma nova consciência, mais independente e autônoma, e com ela a realização da felicidade.

Les Demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso.
O espanhol Pablo Picasso (1881-1973) rompeu com as noções clássicas da beleza e harmonia ao pintar, em 1907, Les Demoiselles d’Avignon (As Moças de Avignon). Influenciado pela escultura negra africana, o artista retratou cinco figuras femininas disformes, com rostos que pareciam máscaras e corpos angulosos. recortados, imperfeitos. Foi uma revolução na arte. Com estas imagens selvagens e transfiguradas, Picasso inaugurou o cubismo, um movimento estético que procurava decompor os objetos até chegar a suas formas básicas naturais.

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