A man eating a big tray of food

Hoje irei abordar o tema obesidade que é tão recorrente nos dias atuais, tanto em adultos quanto em crianças. Estima-se que mais da metade da população brasileira está cima do peso e 17% são obesos. Em crianças, estes números chegam a 15%, numa faixa de 5 a 9 anos de idade.

Vários fatores podem estar relacionados ao aumento do peso. Dentre eles disfunções orgânicas, hormonais, má alimentação e disfunções psicológicas. Neste artigo irei discorrer sobre os aspectos emocionais/psicológicos e sobre os impactos sociais e culturais que interferem negativamente neste problema.

Hoje a obesidade é considerada doença. Existem tratamentos farmacológicos, nutricionais, cirúrgicos e psicoterápicos. Mesmo que seja recomendada a cirurgia para redução do estômago, é extremamente importante o acompanhamento psicológico e nutricional.

Estudos indicam que metade das pessoas que fizeram redução de estômago voltam a engordar, pois não curaram as causas emocionais. Também mudam a compulsão alimentar para compras ou bebidas. A compulsão alimentar é um dos sintomas de disfunções emocionais. Estresse, ansiedade, depressão, raiva, baixa auto estima e carência emocional podem levar a este fenômeno. O indivíduo passa a confundir fome biológica (necessidade de nutrientes) com fome emocional.

A base da alimentação inicia-se desde cedo. Se a criança aprende a comer alimentos saudáveis, respeitando o funcionamento biológico de seu organismo, tende a manter esse funcionamento ao longo da vida. Porém, se aprende a comer alimentos gordurosos ou com poucos nutrientes saudáveis irá continuar a buscar esses tipos de comida quando adulto. Sem uma educação que realmente ensine o valor da alimentação saudável tanto para o corpo como para a mente, a tendência é criar hábitos condizentes com o que nos é oferecido tanto pelas mídias como nos supermercados: comidas prontas, processadas, com altos índices de gordura, açúcar e sódio.

Muito se tem falado de produtos orgânicos, mas infelizmente ainda no nosso país não são de fácil acesso, muito menos economicamente. É bem mais barato comprar comida industrializada. O problema é que este tipo de alimento praticamente não tem nutrientes e engorda. Com a correria do dia-a-dia também ficou mais difícil dispender um tempo maior para cozinhar alimentos orgânicos. É mais prático e rápido comer em restaurantes fast food ou cozinhar comidas que ficam prontas no microondas em 10 a 15 minutos. Cada vez mais tem crescido o número de restaurantes por kilo que oferecem comida natural, mas ainda não faz parte do paladar da maioria das pessoas.

Antigamente estar acima do peso era sinal de riqueza e beleza. Atualmente ser magra/o e ter o corpo perfeito é o desejo de consumo de quase todos os seres humanos. Dietas “malucas” são vendidas nas revistas e internet e mesmo aqueles que procuram por ajuda especializada podem sair com receitas de remédios que mais prejudicam o organismo do que ajudam. As pessoas que se submetem as estas dietas perdem peso de forma errada e logo voltam a engordar, se frustam, comem mais e voltam as dietas. Ciclos e mais ciclos viciosos vão prendendo-as numa trama perversa e cruel que a sociedade impõe por questões exclusivamente financeiras.

Inúmeras adolescentes desenvolvem anorexia ou bulimia e chegam a morrer, outras engordam e desenvolvem problemas emocionais de baixa auto estima. Podem até se fechar para as relações sociais com medo de serem alvo de piadas ou desaprovação.

Comida e emoção

As emoções estão muito ligadas a comida. Muitas crianças quando choram recebem comida para alcamar. Alguns adultos ainda possuem a idéia de que criança bem alimentada, mais gordinha, significa saúde. Os encontros sociais e familiares acontecem na maioria das vezes na mesa, ou de restaurantes ou da cozinha. Quem não se lembra do cheiro delicioso da comida de sua avó ou de sua mãe ou de ocasiões especiais nas quais a comida estava presente?

Muitas sensações boas advém da comida e desse entorno de relações que acontecem nas mesas fartas. Então é natural associar bem estar com comida. E realmente a comida pode ser muito prazeroza. O problema é quando as pessoas que se sentem frustadas, ansiosas, deprimidas e estressadas recorrem às comidas como alternativa para acabar com o sofrimento. Ao ingeri-las recebem muito mais que nutrientes, recebem calma, carinho, aconchego, alegria, preenchimento da sensação de vazio interno. Mas, como os efeitos das drogas, assim que passa a boa sensação, leva o organismo a precisar de mais comida.

A compulsão alimentar ocorre dessa necessidade de saciar aspectos emocionais porém, sem resolve-los.

A culpa é outro fator presente e que pode levar à compulsão alimentar. Podemos sentir culpa por não termos o corpo perfeito, por não nos sentirmos felizes e realizados, por não termos um relacionamento amoroso, por não termos sucesso financeiro e etc. Normalmente pessoas que sentem-se culpadas ao iniciarem uma dieta e a boicotarem seja a noite ou por não conseguirem seguir a risca, tendem a sentir-se culpadas e voltam as comidas para amenizar o sofrimento que a culpa causa.

A mudança de hábitos alimentar requer muito mais do que informação. É preciso descobrir as causas emocionais que estão por trás da necessidade de comer para saná-las de maneiras efetivas e aí sim iniciar todo um processo de mudanças que irão se sustentar ao longo do tempo.

Em crianças e adolescentes, é muito importante os pais estarem atentos e cuidarem para que estes não se sintam excluídos ou diminuídos socialmente. A base da auto estima acontece a partir de boas relações e experiências com o mundo. Normalmente crianças e adolescenes obesos são frutos de famílias obesas ou que descuidam dos aspectos emocionais destas crianças. Muitas crianças comem em execesso por estarem sofrendo. Por isso, cabe aos adultos oferecerem condições de cura e se não souberem como, devem procurar ajuda profissional, principlamente de psicólogos.

Isto serve aos adultos também. Por trás da obesidade há muito sofrimento. Ninguém merece passar a vida sofrendo. Todos temos o direito de ser felizes e de aprendermos a lidar com nossas emoções. Cada ser é único e precisa descobrir o que realmente faz sentido para sua vida. Muitas pessoas sofrem porque acabam acreditando que o certo é o que todos fazem e como não conseguem aplicar isso em suas vidas sentem-se um fracasso, sofrem e se punem. Comer também pode ser uma punição. Porém, nem sempre o que todos fazem é o certo. Refletir sobre suas escolhas, principalmente sobre seus hábitos alimentares e suas emoções pode ser um caminho transformador.
Desta forma pode-se romper com o ciclo vicioso e um novo aprendizado surge. A pessoa aprende a olhar o mundo interno e externo de maneiras muito mais saudáveis e condizentes com a sua real necessidade de existir no mundo, sem precisar para isso se submenter ao modelo coletivo vendido a todos.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286
crisciola@hotmail.com

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