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Tanto a maldade quanto a bondade são inerentes à condição humana. Sem uma certa dose de agressividade não conseguiríamos levantar da cama, tomar iniciativa para vencer os obstáculos. Até mesmo no ato sexual há agressividade. Excesso de bondade sabota o desenvolvimento emocional e a obtenção da independência, como maturidade. Maldade e bondade são faces da mesma moeda.

Mesmo nas crianças pequenas que se apresentam bondosas é necessário movimentos mais agressivos, exatamente para a criança começar a desenvolver a noção de que ela é uma pessoa e a mãe/pai outra. Crianças bondosas demais, muito adaptadas em serem perfeitas, tornam-se inseguras e dependentes emocionalmente. Quem nunca levou tapinhas ou mordidas de crianças pequenas?

Amor e ódio são sentimentos adquiridos a partir das experiências emocionais que temos na infância. Amamos nossos pais, por exemplo, mas também os odiamos quando somos frustrados. Tudo o que nos frustra traz mágoa e até mesmo sentimento de ódio porque ameaça o amor que sentimos; e tudo o que amamos, odiamos porque pode nos frustrar. São sentimentos intensos, profundos e que ocorrem ao mesmo tempo, ou seja, amor e ódio estão presentes o tempo todo.

O próprio ciúmes vem dessas vivências: o quanto odiamos quando amamos. Isso vem do medo de perder o amor, de perder o lugar de importância, de perder a pessoa que é tão importante para nós. Perder o amor da mãe para um bebê ou criança pequena é cair na experiência de desamparo profundo. Isto também ocorre em adultos, é o mesmo processo. Um exemplo disto pode ser visto no filme Gravidade, com Sandra Bullock, quando ela fica solta no espaço sem luz e sem apoio de nada. Por isso, lutamos instintivamente, no sentido de sobrevivência emocional, para sermos amados.

Essas experiências de integração dos sentimentos, em geral, são determinates para um bom desenvolvimento emocional e elas se dão através do cuidado e orientação que recebemos desde que nascemos até a primeira infância.

Equilibrando amor e ódio

A grande questão é o manejo que recebemos de nossos cuidadores frente à seus sentimentos e ações, pois nos ajudará a integrar o amor e ódio e caminhar rumo à atitudes mais bondosas, sem aniquilar o ódio ou o contrário, a caminhar à atitudes mais maldosas, aí sim reprimindo o amor.

Bondade e maldade nos compõe. Fazem parte da nossa natureza humana. Não é nem através da religião e nem da educação familiar e social rígida que os seres humanos se tornarão bondosos. A rigidez pressupõe reprimir. A repressão é como uma panela de pressão sem possibilidade de dar vazão, explode.
Se uma criança não pode sentir raiva, ódio e nem ter atitudes mais agressivas ela está fadada a adoecer emocionalmente e dependendo do grau pode haver uma distorção grave mental, como no caso de psicopatas. Ocorre o mesmo com crianças que são criadas na agressividade excessiva, sendo submetidas à violências físicas e psicológicas.

Uma criança que diz aos pais que os odeia num momento de frustração vai aprender a lidar com sua raiva se os pais aceitarem sua raiva. Por exemplo, a mãe/pai pode dizer ao filho “eu sei que você está com muita raiva agora, mas vai passar, quando passar podemos voltar a conversar”. Essa é uma abordagem muito diferente àquela em que pais dizem “ah, você me odeia, eu te odeio também, quer saber, vou embora, quero ver como você fica”.

Essa última abordagem causa mais insegurança e medo na criança. Ela já está assustada com sua agressividade e recebe a mensagem de que ela realmente é perigosa. Esta criança pode desenvolver um excesso de atitudes motoras, por exemplo, começa a ficar muito agitada ou pode ficar muito passiva, com muito medo, se fechando ao mundo ou apresentando um falso comportamento de bondade (ato puramente mecânico e repetitivo, como um papagaio que fala mas não entende o que fala). Em nenhum dos casos ela aprendeu a lidar com o ódio. Se tornará um adulto com dificuldades no manejo do amor e ódio.

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Maldade em excesso

Excesso de maldade sinaliza falhas no ambiente emocional, familiar e social. Hoje assistimos o crescimento da violência a todo instante direcionadas às crianças, adultos e animais, desde assassinatos, exploração sexual, envenenamento por tinta tóxica, perseguições políticas e religiosas, automutilação, entre outros.

Existe em nós um temor que o ódio seja maior que o amor. Existe também o medo de sermos bondosos porque aprendemos erradamente que bondade tem que suprimir o ódio. Isto gera conflitos internos inconscientes que nos atrapalham nesse processo de integrar amor e ódio, sem atuar, ou seja, sem agir só na bondade ou só na maldade. Quem age só na bondade está repimindo o ódio e um dia pode explodir apresentando comportamentos extremamentes violentos.

As vezes o amor se apodera de nós de um jeito tão grande que não percebemos o ódio e as vezes o ódio se apodera também da mesma forma que não percebemos o amor. Não quer dizer que não existem, mas temos que tomar cuidado, pois sabendo que é natural sentirmos ambos, se durante um tempo relativamente grande estivermos funcionando só de um lado da moeda, existe um desequilíbrio que trará consequências emocionais ruins ao longo do tempo.

Casais que estão passando por crises em seus relacionamentos e que sentem muita raiva um do outro, se tiverem recursos internos bem estruturados conseguirão resgatar o amor ao invés de se perder na raiva e destruir a relação. Muitas vezes se faz necessária a intervenção de um profissional para ajudar os mesmos a encontrarem um caminho de equilíbrio. Isto também serve para crianças e adultos que encontram-se em dificuldades emocionais. Pessoas mais equilibradas criam uma sociedade mais saudável.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista
(11) 5052 9286 / 99850 9074
crisciola@hotmail.com

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