Young woman sitting on bed with headache

Por que sofremos? As vezes, conseguimos identificar o motivo de um sofrimento e tentamos saná-lo. O problema é quando nos deparamos em seguida com o mesmo tipo de sofrimento ou quando percebemos que não conseguimos eliminá-lo, mesmo realizando ações que nos levariam supostamente ao seu fim.

Isso acontece porque o sofrimento tem suas raízes em questões emocionais mais profundas ou inconscientes à nós. Aprendemos desde cedo a sanar o sofrimento com substituições. Se estamos tristes podemos ir ao shopping comprar roupas ou automóveis, por exemplo. Caso a ansiedade esteja presente podemos nos precipitar em tomar resoluções imediatas mais superficiais ou errôneas, na ilusão de trazer uma nova sensação, de preferência boa. E assim, sucessivamente para todos os incômodos provenientes do sofrimento. Porém, essas substituições são ineficientes. Num primeiro momento até promovem certa satisfação só que são passageiras. Por isso, o sofrimento reaparece.

Algumas pessoas reagem de maneira a tentar evitá-lo, adotando uma postura ilusória de felicidade exagerada, outros podem se fechar em seus mundos, tornando-se mais sozinhos e aumentando, com isso, o sentimento de solidão, o que as leva a sofrer ainda mais.

Praticamente todas as ações e principalmente as reações tem suas origens em questões emocionais inconscientes. Estas, por sua vez, decocorrem dos cuidados recebidos desde o nascimento ao longo da vida e são a base de sustentação do desenvolvimento emocional (ver meus posts anteriores sobre desenvolvimento emocional). É preciso também cuidar do emocional para termos uma vida mais saudável, harmônica e com menos sofrimento.

Sem uma base emocional interna mais estruturada podemos sofrer por questões nada relevantes as nossas verdadeiras necessidades. Como vivemos numa sociedade de consumo exacerbado é muito fácil comprar a falsa felicidade que é vendida nas mídias em geral e na crença compartilhada socialmente. Se você não tiver o carro tal, o emprego tal, não fizer a viagem tal, não tiver a aparência tal ou não possuir determinado produto, você não é feliz. Quem acredita nisso e constrói sua vida nessas crenças, irá sofrer. Ao invés de “comprar” felicidade a pessoa “compra” sofrimento. A felicidade não está no externo, mas sim no interno.

Felicidade e sofrimento estão interligados. Felicidade não é um estado, como por exemplo a alegria ou a tristeza. Uma pessoa pode estar triste num determinado momento ou situação mas não deixa de sentir felicidade no todo de sua vida. Estados são experências de sentimentos que vivenciamos. Podemos entrar e sair dos estados. A felicidade quando manifesta internamente não tem como sumir.

Posso estar triste, reconhecer minha tristeza, buscar a origem dela, vivenciá-la até eu sentir que é necessário e depois buscar uma atividade que tire o foco da tristeza. Não estou propondo não sentir tristeza ou negá-la e sim vivenciá-la. Normalmente quando encontramos um sentido ou significado para a tristeza ela diminiu, perde sua força energética. O mesmo ocorre para a alegria ou excitação. Podemos experimentá-la num show, eventos, conquistas importantes. Vivenciamos momentos intensos de alegria e depois voltamos ao funcionamento mais equilibrado ou condizente com nosso habitual no dia-a-dia.

A felicidade pode ser sentida por uma pessoa se a vida como um todo faz sentido à ela. Essa é uma construção que ocorre desde o nascimento. Pessoas que tiveram boas experiências emocionais junto aos seus pais e posteriomente ao mundo social sentem-se mais felizes e sabem que mesmo num momento forte e intenso de tristeza ou dificuldade, não perderão a felicidade que sentem internamente.

Existem várias formas de acrescentar a felicidade a base emocional interna, caso ela inexista.
Novas experiências boas no presente substituem as marcas que ficaram enraizadas das experiências ruins ou difíceis do passado (claro que precisa ser um número considerável de boas novas experiências). Isso se dá através de conversas com pessoas que irão ajudar nesse processo de transformação interna, livros que promovam ajuda emocional, aulas práticas e/ou teóricas com fundamentos mais profundos sobre a existência humana, meditação, yoga, análise ou mesmo novas situações que propiciem novos resultados.

Busque atividades diferentes, conversas que ampliem a visão de mundo, se der, tente superar alguns medos (caso precise de ajuda para isso não hesite em buscar).

Sozinhos dificilmente construimos, seja internamente ou externamente. Se queremos um mundo com menos sofrimento devemos iniciar as mudanças internas em nós. Essas mudanças afetam as pessoas ao nosso redor e também as levam a novas ações ou reações, mesmo que não sejam conscientes à elas. Sofrimento é sintoma de que algo está em desarmonia. Muitas vezes o sofrimento vem da falta da experiência de felicidade na base emocional. Buscar compreender o que nos faz sofrer é o que nos torna livres para ser feliz! Só que esse resultado vem da equação: eu mais um outro que me auxilie (pode ser através de um analista ou psicoterapeuta, professor que passe fundamentos sobre autoconhecimento ou mesmo através de um autor de livros destes assuntos).

Só para enfatizar e talvez lembrá-los um bebê não sobrevive sem os cuidados de um outro capaz de realizar esta tarefa. Um aluno não aprende sem um professor ou mestre, um mergulhador iniciante precisa mergulhar junto com um mais experiente. Isso também se dá no processo de autoconhecimento. Apesar do nome significar conhecimento de si próprio é necessário a ajuda de alguém que seja experiente nesse processo.

Se há sofrimento devemos cuidar para transformar. Essa é uma responsabilidade que poucos, infelizmente, colocam em prática. O clichê que diz “a dor é inevitável, mas o sofrimento opcional” talvez refira-se a impossibilidade de evitarmos situações da vida que nos tragam dor, mas sim, a possibilidade de podermos cuidar do sofrimento.

Cristina Ciola Fonseca
Psicanalista, graduada na PUC-SP, com especialização na UNIFESP
Consultório particular (11) 5052 9286
crisciola@hotmail.com

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